Mudanças no horário podem ter impacto maior do que muita gente imagina

Dormir durante a noite, acordar ao amanhecer. Não é por mero acaso que se convencionou que a vida deveria funcionar dessa maneira. A natureza trabalha dentro de um ritmo biológico que abarca todos os seres que vivem na Terra. O vaivém diário entre luz e escuridão fez com que animais, plantas, fungos e microrganismos adaptassem suas funções vitais para garantir a sobrevivência. 

Essa regularidade também está presente na vida humana. E não se trata apenas de pensar a rotina diária presa ao horário de acordar, comer, realizar atividades repetitivas, etc. Mais importante que isso é o ciclo biológico marcado pela rotina interna do organismo, na qual cada função tem um ritmo próprio determinando períodos em que um indivíduo pode se sentir mais disposto ou mais vulnerável.

No domingo, o fim do horário de verão chega para o alívio de muita gente que não se dá bem com a mudança. No entanto, de acordo com o professor de Fisiologia Jorge Aparecido Barros, da Universidade Católica Dom Bosco, é necessário algum tempo para que a maior parte das pessoas se adapte. “O corpo humano leva, em média, sete dias para entrar no novo ritmo. Não há muito o que ser feito, sobretudo pelas demandas sociais”, afirma. 

Apesar de parecer pouco, uma hora pode ter um impacto muito grande sobre alguns indivíduos. Discussões sobre o impacto que o adiantamento ou o atraso de uma hora no relógio pode ter tiveram início no Brasil em 1970, quatro décadas depois que o horário de verão passou a ser adotado no País. Diversos estudos vêm sendo realizados, como é o caso das pesquisas desenvolvidas no Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos, vinculado ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Em 2015, descobriram que o adiantamento dos relógios em uma hora, no início do horário de verão, influi sobre a temperatura do corpo humano. É uma das provas de que o relógio biológico pode não acompanhar também as transformações. A temperatura do corpo começa a subir mais cedo quando o horário de verão começa e isso aponta para uma desestabilização entre os ritmos da temperatura corporal e da atividade de repouso.

Segundo Jorge, existem outros efeitos claros do impacto que a mudança pode provocar. “Sonolência durante o dia, deficit de atenção, maior fadiga durante o dia, problemas com sono e variações no sono. Tudo isso atinge uma parcela da população durante a readaptação”, comenta. O professor afirma ser contrário ao horário de verão.

RITMO

O corpo humano é regido pelo que se convencionou chamar de relógio biológico. Existe também um campo das ciências médicas e biológicas que se destina a estudá-lo: a cronobiologia. “Durante o período de 24 horas, o organismo vive um ciclo chamado de ritmo circadiano, que consta da liberação de hormônios que ordenam os períodos de vigília e sono, entre outros”, explica Jorge.

A regulação disso é feita por uma estrutura cerebral chamada de hipotálamo. “Ele regula o que acontece com nosso corpo. Isso depende do ambiente. Durante os períodos noturnos, o cérebro vai regular a liberação de melatonina, um hormônio que induz ao sono. Com o alvorecer, é liberado o cortisol, que faz com que o corpo fique alerta e prepare-se para acordar”, explica. Além disso, Jorge afirma que há influência genética, assim como o ambiente pode provocar algumas mudanças importantes. “O ritmo circadiano é controlado pelo ambiente e pela genética”, explica.

Contudo, há de se lembrar que existem indivíduos que se adaptam melhor ao período matutino e outros ao período vespertino. “Essa é uma discussão forte. Artigos recentes tentam levantar o que acontece com esses indivíduos. É algo importante a se compreender, uma vez que pessoas vespertinas terão dificuldade em se adaptar a horários matutinos e vice-versa”, afirma.

O que é chamado de “zero hora” costuma variar de uma pessoa para outra. A luz, entretanto, é o sincronizador mais poderoso entre a maior parte dos seres vivos. O que ocorre é um processo fotoquímico, desencadeado pela retina e que atinge o hipotálamo, na base do cérebro. 

A luminosidade do dia, por exemplo, impede o trabalho da glândula pineal. À noite, ela é desbloqueada, já que a luz artificial não consegue produzir o mesmo efeito que o sol. Assim, a melatonina é liberada e passa a induzir o sono, que é o principal regulador dos ritmos biológicos. Basta ver o que períodos de privação podem causar: confusão mental, dificuldades de raciocínio, problemas de memória, irritabilidade, delírios e alucinações, entre outros problemas, que podem chegar a desmaios.


Fonte: Correio do Estado

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